Enciclopédia do Jiu-Jitsu

Gi x No-Gi: Duas Escolas

Com quimono ou sem quimono: essa é uma das divisões mais antigas e mais discutidas dentro do próprio Jiu-Jitsu. O que começou como uma simples diferença de uniforme se tornou, ao longo das décadas, quase duas culturas competitivas distintas, cada uma com seus próprios torneios, seu próprio jogo técnico e seus próprios ídolos.

Por Redação BJJLF Revisado por Sergio Malibu, Faixa Coral 8º Grau — Fundador Revisado em 19/07/2026 4 min de leitura

Uma diferença de uniforme que virou uma diferença de jogo

Historicamente, o Jiu-Jitsu Brasileiro se desenvolveu — assim como o judô do qual herdou boa parte de sua base técnica — como uma arte praticada de quimono, o "gi", um uniforme resistente que permite pegadas específicas na gola, nas mangas e nas calças do adversário. Por décadas, essa foi praticamente a única forma de se praticar e competir na arte. Foi só ao longo das últimas décadas do século XX e, principalmente, a partir dos anos 2000, que o treino e a competição sem o quimono — o "no-gi" — ganharam espaço próprio, com regras, ritmo e até um público relativamente distintos.

Jiu-Jitsu com gi: o jogo das pegadas

No Jiu-Jitsu tradicional com gi, o quimono não é apenas um uniforme — é parte do arsenal técnico. Pegadas na gola permitem estrangulamentos específicos; pegadas na manga e na calça possibilitam controles de guarda (como a guarda de pegada de manga e calça, ou "spider guard" e variações) que simplesmente não existem sem o tecido para se agarrar. Esse jogo de pegadas tende a deixar o ritmo do combate mais lento e mais baseado em posicionamento estratégico, o que explica por que competições tradicionais de Jiu-Jitsu — como as organizadas pela IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation) — sempre tiveram o gi como formato principal.

No-gi: mais próximo da luta livre, mais rápido

Sem o quimono, o praticante perde as pegadas na roupa e precisa depender de controle sobre o próprio corpo do adversário — punhos, pescoço, tronco, pernas — de forma parecida com o que acontece na luta olímpica (wrestling) e no catch wrestling. Isso costuma deixar o jogo mais rápido, mais explosivo e mais dependente de força e explosão do que o jogo tradicional de gi, já que não há tecido para "segurar o ritmo" do adversário. O uniforme costuma ser um short e uma camiseta justa (rashguard), pensados para não atrapalhar o agarramento nem oferecer pontos de pegada indevidos.

Um marco importante na consolidação do no-gi como modalidade própria foi a criação do ADCC (Abu Dhabi Combat Club Submission Wrestling Championship) em 1998, pelo Sheikh Tahnoon bin Zayed Al Nahyan — hoje considerado por muitos o campeonato de grappling sem quimono mais prestigiado do mundo, reunindo atletas de Jiu-Jitsu, luta olímpica e outras modalidades de agarramento.

Duas escolas, cada vez mais organizadas

Com o tempo, o no-gi deixou de ser apenas "o treino sem quimono" e passou a ter formatos competitivos próprios, alguns deles bastante inovadores em relação ao Jiu-Jitsu tradicional de gi. Um exemplo é o Eddie Bravo Invitational (EBI), criado em 2014 pelo instrutor Eddie Bravo, que popularizou o formato de "overtime" por costas nuas (back control) para desempatar lutas sem pontuação — hoje adotado, com variações, por diversos outros eventos de submission-only (competições onde só existe vitória por finalização, sem pontos). Esses formatos ajudaram a consolidar o no-gi como uma cultura competitiva com identidade própria, e não apenas como uma variação informal do Jiu-Jitsu tradicional.

Hoje, a grande maioria das academias de Jiu-Jitsu ao redor do mundo oferece aulas nos dois formatos, e muitos competidores de alto nível disputam campeonatos tanto de gi quanto de no-gi ao longo da carreira — ainda que, na prática, seja comum encontrar atletas com clara preferência ou maior destaque em um dos dois formatos, dado o quanto o estilo de jogo pode mudar de um para o outro.

O principal campeonato mundial de Jiu-Jitsu com gi, organizado anualmente pela IBJJF e conhecido informalmente como "Mundial" ou "Worlds", segue sendo um dos eventos mais tradicionais e disputados do calendário competitivo da arte, reunindo atletas de dezenas de países em diferentes categorias de peso e faixa. Ao lado dele, o calendário de eventos no-gi cresceu de forma constante nas últimas duas décadas, com competições dedicadas exclusivamente a esse formato atraindo tanto especialistas em Jiu-Jitsu quanto atletas vindos originalmente da luta olímpica.

Uma discussão sem "lado certo"

É comum, dentro da comunidade do Jiu-Jitsu, ouvir debates sobre qual formato é "mais realista" para uma situação de autodefesa, ou qual exige mais habilidade técnica. Praticantes de gi apontam que, em muitas situações do dia a dia, as pessoas estão vestidas com roupas que oferecem pegadas (casacos, camisas), o que tornaria o treino de gi mais representativo dessas situações; praticantes de no-gi, por outro lado, argumentam que o jogo sem quimono se aproxima mais de um confronto sem roupas específicas para agarrar, como uma luta de rua com o torso descoberto ou uma disputa de wrestling. Este verbete não toma partido nessa discussão — ambas as escolas têm décadas de desenvolvimento técnico sério e são hoje partes legítimas e complementares da cultura do Jiu-Jitsu.

Perguntas Frequentes

No-gi é mais fácil que Jiu-Jitsu com gi?

Não é uma questão de mais fácil ou mais difícil, mas de jogo diferente: sem as pegadas do quimono, certas guardas e estrangulamentos tradicionais do gi não existem, enquanto o ritmo tende a ficar mais rápido e mais dependente de controle corporal direto, algo que também exige treino e adaptação específicos.

Dá pra competir só de no-gi sem nunca ter treinado de gi?

É possível, e muitos atletas de luta olímpica ou wrestling migram diretamente para o no-gi sem passar pelo treino tradicional de quimono. Ainda assim, boa parte da base conceitual do Jiu-Jitsu (posições, hierarquia de controle, finalizações) é ensinada historicamente através do gi na maioria das academias.

Qual é o principal campeonato de no-gi do mundo?

O ADCC (Abu Dhabi Combat Club Submission Wrestling Championship), criado em 1998, é amplamente considerado o campeonato de maior prestígio dentro do grappling sem quimono, reunindo atletas de Jiu-Jitsu e de outras modalidades de luta agarrada.

Existe Jiu-Jitsu no-gi olímpico?

Não. Nem o Jiu-Jitsu com gi nem o no-gi fazem parte do programa olímpico até o momento — o judô é que é a modalidade olímpica com raízes técnicas relacionadas.

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Autor

Redação BJJLF

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Revisor

Sergio Malibu

Faixa Coral 8º Grau — Fundador

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