Enciclopédia do Jiu-Jitsu
A Evolução do Jogo de Guarda ao Longo das Décadas
A guarda é a posição mais associada à identidade do Jiu-Jitsu Brasileiro — a ideia de que é possível atacar e se defender a partir de baixo, sem precisar depender da força física, é uma das grandes marcas culturais do esporte. Mas o jogo de guarda de hoje tem muito pouco em comum com o jogo de guarda de décadas atrás. Entenda como essa evolução aconteceu.
A guarda como marca de identidade do Jiu-Jitsu
Poucos conceitos definem tão bem a identidade cultural do Jiu-Jitsu Brasileiro quanto a guarda: a posição na qual um praticante, deitado de costas, usa as pernas para controlar a distância, impedir o avanço do adversário e criar oportunidades de raspagem e finalização. A ideia de que é possível não apenas sobreviver, mas efetivamente atacar a partir de uma posição aparentemente desfavorável, é um dos pilares que diferenciam o Jiu-Jitsu de outras artes marciais e de outros estilos de luta agarrada.
Mas o repertório técnico usado dentro da guarda mudou de forma significativa ao longo das décadas de desenvolvimento competitivo do esporte, em um processo de evolução constante que segue acontecendo até hoje, moldado tanto pela criatividade de atletas e equipes quanto pelas próprias mudanças no regulamento de competição.
Da guarda fechada tradicional às guardas abertas
Nas décadas iniciais de desenvolvimento competitivo do Jiu-Jitsu, o jogo de guarda tendia a se concentrar fortemente na guarda fechada — as pernas travadas ao redor do tronco do adversário — como posição de controle e ataque preferencial, com o objetivo de romper a postura do oponente antes de buscar uma finalização ou uma raspagem direta. Era um jogo de guarda voltado principalmente ao controle próximo e à paciência técnica.
Com o tempo, o desenvolvimento de guardas abertas — posições em que o praticante solta o travamento das pernas ao redor do adversário e passa a usá-las de forma mais dinâmica, com os pés e ganchos controlando a distância e criando ângulos — ampliou enormemente o repertório disponível para quem jogava por baixo. Guardas como a De La Riva e variações próximas se popularizaram nesse processo, abrindo caminho para um jogo de guarda muito mais baseado em movimentação constante do que em controle estático.
A revolução das guardas modernas: X-guard e berimbolo
A partir dos anos 2000 e, de forma ainda mais intensa, na década seguinte, o jogo de guarda passou por uma verdadeira revolução técnica com a popularização de posições como a guarda X, detalhada no verbete específico, e do berimbolo, o rolamento invertido que permite alcançar as costas do adversário a partir de uma guarda aberta, explicado em profundidade no verbete sobre a entrada do berimbolo. Essas posições trouxeram um nível de complexidade e dinamismo ao jogo por baixo que seria dificilmente reconhecível para um competidor das primeiras décadas do esporte.
Esse movimento de inovação constante costuma estar associado a determinadas equipes e atletas que se especializaram em desenvolver e refinar essas posições, reforçando o papel cultural das equipes históricas — tema aprofundado no verbete correspondente — como verdadeiros laboratórios de evolução técnica dentro do esporte.
Mais recentemente: a valorização das chaves de perna
Nos anos mais recentes, uma nova frente de evolução ganhou força dentro do jogo de guarda moderno: a especialização em chaves de perna a partir de posições de guarda específicas, aumentando de forma expressiva a frequência com que esse tipo de finalização aparece mesmo em competições tradicionais com kimono, historicamente mais restritivas quanto a esse tipo de ataque. Esse movimento se conecta diretamente à cultura de formatos como o ADCC e as superlutas submission-only, discutidos nos verbetes correspondentes, nos quais a busca ativa pela finalização — incluindo por chaves de perna — costuma ser especialmente valorizada.
- Guarda fechada tradicional — controle próximo, pernas travadas ao redor do tronco do adversário.
- Guardas abertas (como a De La Riva e variações) — maior mobilidade e uso ativo dos pés e ganchos.
- Guarda X e posições relacionadas — controle sofisticado das pernas do adversário a partir de baixo.
- Berimbolo — rolamento invertido que busca a posição de costas a partir de uma guarda aberta.
- Chaves de perna a partir da guarda — especialização mais recente, impulsionada também por formatos como o ADCC.
Uma evolução que não termina
Tratar a evolução do jogo de guarda como um processo encerrado seria um erro: novas variações, combinações e adaptações continuam surgindo a cada temporada competitiva, muitas vezes em resposta direta a ajustes no regulamento ou a novas estratégias de passagem de guarda desenvolvidas para neutralizar as inovações anteriores. Esse ciclo constante de inovação e resposta é, para muitos praticantes e comentaristas do esporte, uma das características mais fascinantes do Jiu-Jitsu como sistema técnico vivo.
Para quem está aprendendo o esporte hoje, entender essa linha do tempo ajuda a contextualizar por que determinadas posições parecem tão diferentes entre si, e por que um professor mais experiente pode descrever certas guardas como "clássicas" e outras como "modernas" — uma distinção que reflete diretamente décadas de evolução técnica dentro da própria cultura do Jiu-Jitsu.
Perguntas Frequentes
A guarda fechada tradicional ainda é usada na competição moderna?
Sim. Apesar da popularização de guardas abertas e posições mais dinâmicas, a guarda fechada continua sendo uma ferramenta fundamental do jogo por baixo, especialmente como base de controle e ponto de partida para outras posições.
O berimbolo substituiu as guardas tradicionais?
Não. O berimbolo se somou ao repertório disponível dentro do jogo de guarda moderno, mas guardas mais tradicionais e guardas abertas continuam amplamente utilizadas, muitas vezes em combinação com posições mais recentes.
Por que as chaves de perna se tornaram mais comuns recentemente?
O crescimento de formatos que valorizam fortemente a finalização — como o ADCC e as superlutas submission-only — incentivou a especialização de atletas em chaves de perna a partir de posições de guarda, aumentando sua frequência mesmo em competições tradicionais com kimono.
Existe uma guarda que seja definitivamente "a melhor"?
Não. A evolução constante do jogo de guarda mostra justamente o oposto: diferentes posições continuam sendo desenvolvidas, adaptadas e combinadas, sem que nenhuma guarda específica se torne permanentemente superior às demais dentro do jogo competitivo moderno.
Fontes
- [1] Brazilian jiu-jitsu — verbete — Wikipedia (acesso em 19/07/2026)
- [2] BJJ Heroes — histórico e cultura do Jiu-Jitsu competitivo — BJJ Heroes (acesso em 19/07/2026)
Autor
Redação BJJLF
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