Quedas
O Soto Gari
Poucas quedas carregam tanta tradição quanto o O Soto Gari — a "ceifa externa maior" do Judô, adotada de corpo inteiro pelo Jiu-Jitsu. Indicada a partir da Faixa Azul, com dificuldade moderada, ela recompensa quem entende de quebra de postura e timing mais do que força bruta.
Vídeo desta técnica em breve
Este espaço é reservado para o vídeo e as fotos oficiais da demonstração, gravados no tatame.
O Soto Gari (大外刈, "ceifa externa maior") é uma das quedas mais antigas e mais estudadas do Judô, catalogada entre os 40 arremessos originais do Gokyo criado por Jigoro Kano no fim do século XIX. No Jiu-Jitsu, o golpe chegou pela mesma raiz histórica que uniu as duas artes desde Mitsuyo Maeda: como o Jiu-Jitsu herdou grande parte do seu jogo em pé do Judô, o O Soto Gari se manteve como uma das quedas de referência sempre que o kimono e a pegada de gola e manga estão em jogo.
Mecanicamente, o O Soto Gari é uma queda de "ceifa": em vez de agarrar as pernas do adversário como no duplo ou no single leg, o atacante usa a própria perna para varrer por trás a perna de apoio dele, enquanto quebra a postura dele para trás com as mãos. É uma técnica que depende muito mais de timing, ângulo e quebra de equilíbrio do que de força — por isso costuma ser ensinada a partir da Faixa Azul, quando o aluno já tem noção mais consistente de pegadas, distância e quebra de postura.
É especialmente eficaz contra adversários que mantêm o peso muito concentrado em uma perna de apoio (geralmente a de trás), contra quem avança em linha reta sem cuidado com a base, e em disputas de pegada de kimono onde o atacante já conquistou uma pegada de gola alta. Pela regra IBJJF vigente, a queda controlada e finalizada em posição de vantagem vale 2 pontos — e um O Soto Gari bem-feito, que derruba o adversário de costas com clareza, costuma ser um dos exemplos mais nítidos de execução para o árbitro.
Como aplicar
Pegada de kimono
Conquiste uma pegada de gola (alta, próxima ao pescoço) com uma das mãos e uma pegada de manga com a outra, mantendo os braços do adversário levemente controlados e a distância curta.
Quebra de postura
Puxe a gola para cima e para trás, forçando o queixo do adversário a subir e o peso dele a deslocar para a perna de trás — esse deslocamento de peso é o que torna a ceifa possível.
Entrada do corpo
Avance o próprio corpo colado ao dele, girando levemente o quadril para o mesmo lado da perna que será ceifada, sem perder a pegada de gola e manga conquistada no passo anterior.
Elevação da perna de ceifa
Levante a própria perna (a mais próxima da perna de apoio dele) mantendo o joelho levemente flexionado, preparando o movimento de varredura por trás do calcanhar ou da panturrilha do adversário.
A ceifa
Leve a perna em um arco por trás da perna de apoio dele, como um pêndulo, "ceifando" o apoio no exato momento em que o peso dele já está deslocado para trás pela quebra de postura.
Finalização com as mãos
No mesmo instante da ceifa, empurre com as mãos (gola e manga) na direção da queda, reforçando a quebra de postura já iniciada — a queda deve ser resultado da combinação braços + perna, nunca só de uma das duas.
Acompanhamento ao chão
Acompanhe o adversário até o tatame sem soltar completamente as pegadas, controlando a queda e já se posicionando para consolidar os pontos ou iniciar a passagem de guarda.
Erros comuns
- Tentar a ceifa sem antes quebrar a postura do adversário, atacando uma perna que ainda sustenta peso normalmente.
- Ceifar "de baixo para cima", com um chute, em vez de um arco de pêndulo controlado com o joelho levemente flexionado.
- Soltar a pegada de gola no meio do movimento, perdendo o controle da direção da queda.
- Executar o movimento fora de tempo, ceifando antes ou depois do momento em que o peso do adversário realmente está sobre a perna de apoio.
- Focar só na perna e esquecer do empurrão das mãos, resultando numa queda incompleta ou sem controle.
Segurança
Variações e encadeamentos
Quando o adversário sente a quebra de postura e recua a perna de apoio para escapar da ceifa, o atacante muitas vezes consegue converter o ataque em um duplo ou um single leg, já que o peso dele estará momentaneamente instável e mal distribuído. Contra adversários que resistem à pegada de gola empurrando o braço do atacante para longe, um arm drag para as costas pode aproveitar exatamente esse empurrão para puxar o braço e girar para trás dele. O O Soto Gari também combina bem com disputas de pegada mais longas: um atacante que já domina a pegada cruzada de kimono usada em raspagens de guarda encontra no O Soto Gari uma continuação natural assim que o combate volta para a posição em pé.
Perguntas Frequentes
O O Soto Gari funciona sem kimono (no-gi)?
É bem mais difícil: a técnica depende fortemente da pegada de gola e manga para quebrar a postura do adversário antes da ceifa. No no-gi, praticantes costumam adaptar com pegadas de pescoço e braço (clinch), mas a versão clássica é pensada para o kimono.
Por que essa queda é ensinada só a partir da Faixa Azul?
Porque exige timing de quebra de postura, leitura de peso do adversário e coordenação entre mãos e perna — conceitos que costumam ficar mais claros depois que o aluno já tem alguma bagagem de pegadas e distância como Faixa Branca.
Qual a diferença entre o O Soto Gari e as quedas de wrestling como o duplo?
O O Soto Gari depende de pegada de kimono e quebra de postura para desequilibrar o adversário antes de ceifar a perna dele; já o duplo e o single leg atacam diretamente as pernas com os braços, sem depender de pegadas de gi.
O que fazer se a ceifa não derrubar de primeira?
Manter as pegadas de gola e manga e reavaliar: muitas vezes o peso do adversário ainda não estava totalmente sobre a perna de apoio no momento da ceifa. Recuar, quebrar a postura de novo e tentar uma segunda entrada costuma funcionar melhor do que insistir na força.
Fontes
- [1] O soto gari — verbete técnico sobre a ceifa externa do Judô — Wikipedia (acesso em 19/07/2026)
- [2] JudoInfo — recursos e referência técnica de Judô — JudoInfo (acesso em 19/07/2026)
- [3] IBJJF Help Desk — Rules (pontuação oficial de quedas) — IBJJF — International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (acesso em 19/07/2026)
Autor
Redação BJJLF
Continue treinando